Por que algumas mulheres demoram para nomear o que estão vivendo como abuso? Taiza Tosatt Eleoterio explica

Julia Norwell
Julia Norwell
Taiza Tosatt Eleoterio

Nomear um relacionamento abusivo, como aponta a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, costuma ser um dos passos mais difíceis desse processo, muito mais difícil, inclusive, do que reconhecer que algo naquela relação causa sofrimento. Essa demora não deve ser confundida com falta de percepção, mas compreendida como parte de um processo emocional complexo, que envolve medo, esperança e, muitas vezes, vínculos afetivos profundos difíceis de desfazer de uma só vez. 

Por que reconhecer o sofrimento é diferente de nomear o abuso?

É comum que uma mulher perceba, há anos, que algo em sua relação a faz sofrer, sem conseguir, no entanto, usar a palavra “abuso” para descrever o que vive. Esse distanciamento entre sentir o sofrimento e nomeá-lo corretamente não é falta de clareza, mas uma proteção emocional diante de algo difícil demais de encarar de uma vez. Muitas vezes, é mais fácil explicar o sofrimento por outros motivos, como cansaço ou estresse do dia a dia, do que admitir sua origem real.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que nomear o abuso torna a situação mais concreta, e essa concretude pode ser assustadora, já que abre a possibilidade de ter que agir diante do que antes podia ser minimizado ou racionalizado de diferentes formas.

O papel da comparação social nesse processo

Muitas mulheres comparam a própria relação com casos que consideram “mais graves”, concluindo que, se não há agressão física, por exemplo, talvez não se trate realmente de abuso. Essa comparação, embora compreensível, ignora que o abuso emocional, psicológico e financeiro também causa danos profundos, mesmo sem deixar marcas visíveis. Essa hierarquia informal do que “conta” como abuso costuma atrasar ainda mais o momento em que a mulher se permite buscar ajuda.

Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, essa comparação funciona como uma forma de manter a esperança de que a situação ainda pode ser resolvida, ou de que, por não se encaixar em um estereótipo específico de abuso, talvez ainda haja espaço para melhora dentro daquela mesma relação.

Por que o próprio abusador dificulta esse reconhecimento?

Frases como “você está exagerando” ou “isso não é nada demais” fazem parte de um padrão comum de invalidação, que, ao longo do tempo, faz a mulher duvidar da própria percepção sobre o que está vivendo. Esse processo, repetido de forma constante, torna cada vez mais difícil confiar no próprio julgamento sobre a relação, mesmo diante de sinais que, para uma pessoa de fora, seriam claros.

Como pondera Taiza Tosatt Eleoterio, essa invalidação sistemática é, muitas vezes, parte da própria dinâmica abusiva, funcionando como uma estratégia, nem sempre consciente por parte do parceiro, para manter a mulher em dúvida sobre a validade do que sente, o que ajuda a sustentar o ciclo da violência por mais tempo. 

O impacto do afeto misturado ao sofrimento

Relações abusivas raramente são compostas apenas de momentos ruins. A presença de afeto genuíno, intercalado com episódios de sofrimento, torna ainda mais complexo nomear a relação como abusiva, já que reconhecer isso parece, de alguma forma, negar também os momentos bons vividos ali. Essa mistura confunde até quem observa a relação de fora, o que torna o julgamento externo, muitas vezes, tão despreparado quanto a própria dificuldade da mulher em nomear o que vive.

Taiza Tosatt Eleoterio avalia que essa mistura entre afeto e sofrimento é justamente o que torna o abuso emocional tão difícil de nomear, diferente de situações mais claramente identificáveis, em que a ausência total de afeto facilitaria esse reconhecimento, ainda que esse tipo de situação seja, na prática, mais raro do que se imagina.

O papel do tempo nesse processo de reconhecimento

Nomear uma relação como abusiva não costuma acontecer de uma vez, mas em camadas, à medida que a mulher revisita, aos poucos, situações vividas ao longo do tempo, muitas vezes ajudada por conversas com outras pessoas ou por informações que a fazem reconhecer padrões antes invisíveis.

Esse processo gradual não deve ser apressado por terceiros, mesmo bem-intencionados, já que cada mulher precisa desse tempo próprio para reorganizar internamente o que está vivendo, sem que essa demora seja confundida com falta de consciência sobre a própria situação. A dependência emocional construída ao longo da relação também influencia diretamente o ritmo desse reconhecimento. 

Como apoiar esse processo sem pressionar?

Amigos e familiares muitas vezes se frustram quando percebem o abuso antes da própria mulher, e essa frustração pode levar a cobranças que, em vez de ajudar, reforçam o isolamento e a dificuldade de falar sobre o assunto abertamente. Insistir repetidamente em uma nomeação que a mulher ainda não consegue fazer pode, inclusive, afastá-la das pessoas que mais desejam ajudá-la.

Oferecer escuta sem julgamento, mesmo antes de a mulher conseguir nomear claramente o que vive, como frisa Taiza Tosatt Eleoterio, costuma ser mais eficaz do que insistir em uma definição que ainda não faz sentido para ela, respeitando o tempo necessário para que esse reconhecimento aconteça de forma genuína, sem pressa e sem cobrança de que aconteça em um prazo determinado. 

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