A dívida pública federal encerrou agosto de 2026 em R$ 9,29 trilhões, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional e pelo Ministério da Fazenda em 28 de setembro. O estoque ficou praticamente estável na comparação com julho, com alta nominal de apenas 0,04%. A fotografia do mês, porém, esconde uma mudança relevante na composição da dívida: os títulos remunerados por taxas flutuantes, principalmente vinculados à Selic, atingiram a maior participação da série histórica.
De acordo com o Ministério da Fazenda, a fatia desses papéis passou de 51,11% para 52,74% do estoque em agosto. A série histórica começou em dezembro de 2000. Na prática, isso significa que uma parcela cada vez maior do custo de financiamento do governo acompanha diretamente as decisões do Banco Central sobre a taxa básica de juros.
Juros anulam efeito do resgate líquido
O Tesouro realizou resgate líquido de R$ 84,43 bilhões no mês. A operação, isoladamente, tenderia a reduzir o estoque da dívida. O problema é que a apropriação de juros somou R$ 88,39 bilhões no mesmo período, valor suficiente para praticamente neutralizar o efeito do resgate. A conta mostra como a estabilidade nominal do estoque não representa, necessariamente, uma melhora estrutural das finanças públicas.
O custo médio acumulado da dívida nos 12 meses também avançou, de 12,45% para 12,59% ao ano. Quando os juros permanecem elevados e uma parcela significativa dos títulos está atrelada a taxas flutuantes, o governo fica mais exposto a aumentos ou à manutenção da Selic em patamares altos. A dívida pode até não disparar em um único mês, mas continua incorporando despesas financeiras expressivas.
Esse mecanismo limita a capacidade de planejamento do governo. Cada decisão de política monetária passa a ter impacto direto sobre a rolagem dos títulos federais, além dos efeitos já conhecidos sobre crédito, consumo e investimento. O debate fiscal, portanto, não envolve apenas o volume de gastos ou a busca por resultado primário, mas também o preço pago para financiar o Estado.
Reserva de liquidez diminui, mas cobre vencimentos
O relatório mensal da dívida, disponível no Tesouro Transparente, aponta ainda que a reserva de liquidez caiu de R$ 1,371 trilhão para R$ 1,208 trilhão. Mesmo com a redução, o colchão financeiro correspondia a 7,18 meses de vencimentos, segundo os dados oficiais. A reserva é um instrumento para garantir os pagamentos da dívida e reduzir riscos de refinanciamento em momentos de maior instabilidade.
Ao mesmo tempo, o prazo médio da dívida aumentou de 4,05 para 4,10 anos. A parcela com vencimento nos 12 meses seguintes recuou de 18,91% para 16,39%. Esses indicadores sugerem uma estrutura de vencimentos um pouco menos concentrada no curto prazo, mas não eliminam a vulnerabilidade provocada pela elevada participação dos títulos indexados à Selic.
É justamente essa combinação que merece atenção: o Tesouro tem algum espaço de liquidez e conseguiu reduzir a parcela vincenda no curto prazo, mas o custo financeiro continua elevado. A administração do passivo melhora em determinados indicadores enquanto a despesa com juros mantém a dívida pressionada. O resultado é um quadro menos explosivo na aparência, porém mais sensível ao ambiente monetário.
Corte da Selic pode aliviar a conta, mas não resolve tudo
Em setembro, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano. A Agência Brasil informou que a ata do Copom associou o corte à desaceleração da atividade econômica, embora tenha registrado que as expectativas de inflação permanecem acima da meta. O Banco Central também destacou os efeitos dos juros elevados sobre crédito, consumo e demanda.
Uma sequência de cortes, caso se confirme, tende a reduzir gradualmente o custo dos títulos ligados à Selic. O alívio, no entanto, não é automático nem suficiente para resolver a trajetória da dívida. A composição registrada em agosto mostra que o governo segue dependente de uma política monetária que, ao mesmo tempo em que busca controlar a inflação, encarece o financiamento público.
O número de R$ 9,29 trilhões, por si só, chama atenção. Mas o dado mais revelador está nos R$ 88,39 bilhões em juros apropriados e na participação recorde de 52,74% dos papéis flutuantes. A dívida não avançou significativamente no mês, mas ficou mais exposta ao preço do dinheiro. Para as contas públicas, a estabilidade de agosto pode ser menos uma solução do que uma pausa em uma conta que continua correndo.
Fontes: Agência Brasil, Folha de S.Paulo e Poder360.
