A greve dos entregadores de aplicativo, que entrou em seu segundo dia de paralisação em todo o Brasil, tem gerado repercussões significativas não apenas para os trabalhadores, mas também para os consumidores e para as empresas que dependem desse serviço. A iniciativa, que ganhou o nome de “Breque dos APPs”, visa chamar a atenção para as condições precárias de trabalho enfrentadas pelos entregadores e a falta de uma remuneração justa. A greve tem como objetivo pressionar as empresas de entrega para que ajustem as condições de trabalho, que os manifestantes consideram como exploração.
Os entregadores, principalmente em São Paulo, realizaram uma série de protestos que se intensificaram no segundo dia de paralisação, incluindo uma motociata em direção à Avenida Paulista. A cidade, considerada o epicentro das manifestações, tem registrado diversos impactos no funcionamento das plataformas de delivery, com consumidores relatando atrasos significativos na entrega de pedidos. Alguns usuários chegaram a esperar até duas horas para receber suas refeições, evidenciando a seriedade do movimento e os efeitos diretos sobre a experiência dos clientes.
Entre as principais exigências dos entregadores, destacam-se o pagamento mínimo de R$ 10 por entrega, além de R$ 2,50 por quilômetro rodado. Outra reivindicação importante é a fixação de um limite de 3 quilômetros para entregas realizadas com bicicletas, além da eliminação do agrupamento de corridas sem uma devida compensação financeira. O modelo de trabalho, que depende de uma lógica de pagamento por entrega, tem gerado insatisfação, pois muitos consideram que ele precariza a vida dos trabalhadores e intensifica o cansaço devido à constante pressão por resultados.
Além das condições de trabalho, a greve dos entregadores de aplicativo também levanta questões sobre a remuneração. Embora algumas empresas de tecnologia, como iFood e Uber, indiquem que houve um aumento na renda média dos entregadores entre 2023 e 2024, os manifestantes afirmam que os ganhos são insuficientes diante das longas jornadas de trabalho. A situação é vista por muitos como uma forma de “escravidão moderna”, onde a autonomia para decidir os horários de trabalho não compensa as condições adversas e os baixos rendimentos.
A adesão à greve é difícil de mensurar devido à natureza autônoma do trabalho dos entregadores. Muitos trabalhadores são autônomos e não pertencem a um único grupo ou associação, o que torna a mobilização uma tarefa desafiadora. No entanto, a solidariedade entre os entregadores tem se mostrado crescente, e muitos têm se unido às manifestações para exigir mudanças nas políticas de remuneração e na organização do trabalho.
As empresas de aplicativos, por sua vez, afirmam que respeitam o direito à manifestação dos entregadores e que mantêm canais de diálogo abertos para discutir melhorias nas condições de trabalho. A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como iFood, Uber e 99, destacou que o aumento de 5% na renda média dos entregadores, registrado entre 2023 e 2024, demonstra que algumas mudanças estão sendo feitas. No entanto, os protestos indicam que essas medidas não são suficientes para atender às demandas dos trabalhadores.
Além da greve atual, os entregadores já estão organizando um novo evento para o dia 1º de maio, na Avenida Paulista, que tem como objetivo chamar atenção para o fim da escala de trabalho 6×1 e para a busca por uma vida que não seja exclusivamente dedicada ao trabalho. Os entregadores querem que as empresas de aplicativos reconheçam a necessidade de uma jornada mais equilibrada e de melhores condições para que possam exercer suas funções com dignidade e segurança.
Com o impacto da greve, os consumidores se vêem diante de uma situação em que os serviços de entrega não funcionam como de costume, com restaurantes fechados e prazos de entrega esticados. A busca por uma compensação de tempo e qualidade de serviço tem sido um ponto de frustração para muitos usuários. Esse cenário destaca a importância de encontrar um equilíbrio entre os interesses dos trabalhadores e a experiência do cliente, para garantir que ambos os lados tenham suas necessidades atendidas de forma justa e equilibrada.
A greve dos entregadores de aplicativo se torna, portanto, uma luta por melhores condições de trabalho, remuneração justa e reconhecimento do papel fundamental que esses profissionais desempenham na economia digital atual. A busca por um equilíbrio entre as necessidades dos trabalhadores, das empresas e dos consumidores continua sendo o ponto central dessa mobilização, que promete ainda render novos protestos e movimentos em busca de justiça para esses profissionais essenciais.
Autor: Kirill Dmitriev