Agentes de inteligência artificial ganham espaço no Brasil e podem mudar a forma como empresas e trabalhadores lidam com tecnologia

Julia Norwell
Julia Norwell
Agentes de inteligência artificial ganham espaço no Brasil e podem mudar a forma como empresas e trabalhadores lidam com tecnologia

Evento realizado em São Paulo coloca agentes de IA no centro do debate sobre produtividade, atendimento e novas relações de trabalho.

A inteligência artificial começa a entrar em uma fase diferente no Brasil: em vez de apenas responder perguntas ou produzir textos, sistemas chamados de agentes de IA passam a executar tarefas, tomar decisões dentro de limites definidos e interagir com diferentes ferramentas. O avanço ganhou destaque nesta semana com a realização do Super Bots Experience 2026, em São Paulo, evento dedicado a chatbots, assistentes virtuais e inteligência artificial conversacional, cuja programação de 19 de agosto é concentrada nos agentes de IA. (ABES)

A mudança parece técnica, mas pode afetar atividades muito próximas do cotidiano, como atendimento ao consumidor, vendas, suporte, serviços financeiros e tarefas administrativas. A dúvida que surge é maior: os agentes de IA representam apenas uma nova ferramenta de produtividade ou estão preparando uma transformação mais profunda na maneira como o brasileiro trabalha?

A nova geração de IA deixa de apenas responder e começa a executar tarefas

A diferença entre um chatbot tradicional e um agente de IA está principalmente no grau de autonomia. Um chatbot costuma responder a uma solicitação dentro de um fluxo previamente estabelecido, enquanto um agente pode receber um objetivo, dividir a tarefa em etapas, consultar informações e utilizar diferentes sistemas para tentar chegar ao resultado. É justamente essa evolução que está sendo discutida no Super Bots Experience, que reúne empresas de tecnologia e organizações de setores como bancos, telecomunicações, seguros e varejo. (ABES)

O interesse brasileiro pelo tema não surgiu apenas agora. Segundo informação divulgada em agosto, agentes de IA já são utilizados por cerca de 1 milhão de empresas no Brasil por meio do WhatsApp, mostrando como o país pode se tornar um laboratório importante para aplicações de inteligência artificial ligadas ao atendimento e aos negócios. (UOL) O dado ajuda a explicar por que o debate deixou de estar restrito aos departamentos de tecnologia e passou a envolver marketing, vendas, relacionamento com clientes e gestão.

A mudança pode ser relevante para pequenos negócios também. Um agente capaz de responder clientes, organizar solicitações, consultar informações e encaminhar determinadas demandas pode reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas. Isso não significa, porém, que qualquer empresa esteja pronta para delegar decisões importantes a sistemas automatizados, já que erros, informações incorretas e falhas de segurança continuam sendo riscos concretos.

O impacto no trabalho pode ser maior do que a simples automação

O avanço dos agentes de IA também modifica a discussão sobre emprego. Uma pesquisa acadêmica recente da Universidade de São Paulo, baseada em dados da Pnad Contínua entre 2012 e 2024, identificou que quase metade dos trabalhadores brasileiros está em ocupações consideradas altamente automatizáveis pela metodologia utilizada no estudo. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que as evidências indicam uma adaptação gradual, e não uma substituição abrupta de trabalhadores em larga escala. (Tese da USP)

Esse detalhe é importante para entender o futuro. A tendência pode ser menos parecida com uma máquina simplesmente ocupando o lugar de uma pessoa e mais semelhante à reorganização das tarefas realizadas por cada profissional. Algumas atividades repetitivas podem desaparecer ou ser reduzidas, enquanto crescem funções relacionadas à supervisão, análise, criatividade, relacionamento, segurança e capacidade de verificar o trabalho produzido pela própria inteligência artificial.

O debate recente no setor audiovisual brasileiro reforça essa hipótese. Rafael Nasser, CEO da WPP Production Brasil, afirmou que a IA pode acelerar determinadas etapas de produção e reduzir custos, mas também destacou a necessidade de profissionais capazes de testar sistemas, aprender continuamente e supervisionar resultados. (UOL) A questão, portanto, não será apenas saber utilizar uma ferramenta, mas entender quando confiar nela, quando corrigir seus resultados e quando decidir que uma tarefa não deve ser automatizada.

Por que o futuro da IA no Brasil também depende de inclusão e segurança

O Brasil já possui uma estratégia nacional para ampliar sua capacidade de inteligência artificial. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, com recursos destinados a infraestrutura, formação profissional, pesquisa, inovação e aplicações no setor público. O próprio plano estabelece como objetivo desenvolver soluções no país e ampliar a eficiência e a inovação no uso sustentável da tecnologia. (Serviços e Informações do Brasil)

Isso cria uma oportunidade, mas também um desafio. Se os agentes de IA se espalharem rapidamente entre grandes empresas enquanto trabalhadores de baixa renda, pequenos negócios e regiões com menor infraestrutura tiverem menos acesso à tecnologia e à capacitação, a inovação poderá aumentar diferenças já existentes. Dados citados em debate recente sobre IA no Brasil mostram uma diferença expressiva de utilização de ferramentas generativas entre classes sociais, indicando que acesso ao serviço não significa necessariamente capacidade de aproveitar seus benefícios. (UOL Notícias)

A segurança será outra questão decisiva. Nesta semana, um incidente envolvendo testes de agentes de IA da OpenAI reacendeu discussões internacionais sobre sistemas que podem agir de maneira inesperada fora de ambientes controlados. Especialistas ouvidos sobre episódios recentes envolvendo diferentes empresas destacaram que comportamentos imprevistos podem resultar de limitações dos modelos, instruções ambíguas, dados incompletos e configurações inadequadas. (UOL)

Para o brasileiro, isso significa que a transformação provavelmente acontecerá de maneira gradual, mas já começou. Empresas terão de decidir quais tarefas podem ser automatizadas, trabalhadores precisarão desenvolver novas competências e governos terão de lidar com questões de formação, segurança e acesso. O futuro não aponta necessariamente para um mercado sem trabalhadores, mas para um mercado no qual saber trabalhar junto com sistemas inteligentes pode se tornar uma habilidade cada vez mais importante.

O que está acontecendo agora em torno dos agentes de IA merece atenção justamente porque vai além da novidade tecnológica. A expansão dessas ferramentas pode alterar atendimento, consumo, produtividade e profissões nos próximos anos, enquanto o Brasil tenta construir infraestrutura e conhecimento próprios para participar dessa transformação. (Serviços e Informações do Brasil)

Para quem trabalha ou pretende entrar no mercado, o sinal mais importante é que aprender continuamente pode se tornar tão importante quanto dominar uma profissão específica. Para empresas, o desafio será equilibrar eficiência com segurança e responsabilidade. E, para o país, a questão central será garantir que a próxima onda tecnológica não seja apenas rápida, mas também acessível e capaz de gerar oportunidades em diferentes setores da sociedade.

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