Boletim Focus aponta 15ª alta seguida na previsão de inflação para 2026

Diego Rodríguez Velázquez
Diego Rodríguez Velázquez
Boletim Focus aponta 15ª alta seguida na previsão de inflação para 2026

Mercado eleva projeção do IPCA para 5,33% e da Selic para 14%, mesmo com sinal de trégua na guerra no Oriente Médio.

A inflação voltou a dominar as conversas sobre economia no Brasil nesta semana, mas não pelos motivos que o governo gostaria. O Boletim Focus, pesquisa semanal feita pelo Banco Central com instituições financeiras e divulgada na segunda-feira, 22 de junho, mostrou que o mercado elevou pela 15ª semana consecutiva sua projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, que deve fechar 2026 em 5,33%, bem acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central. O dado chama atenção porque vem mesmo após o anúncio de um acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio, conflito que vinha pressionando os preços de combustíveis e alimentos em todo o mundo. Para quem só sente a inflação no fim do mês, na hora de pagar as contas, a pergunta que fica é simples: por que os preços continuam difíceis de controlar mesmo com a Selic em um dos níveis mais altos da história recente?

O que mostra a 15ª alta seguida na projeção de inflação

Segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central, a estimativa para o IPCA de 2026 passou de 5,30% para 5,33%, mantendo uma sequência de revisões para cima que já dura 15 semanas seguidas. O número está bem acima do teto de 4,5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional como limite aceitável dentro da meta de inflação, fixada oficialmente em 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Para os anos seguintes, o cenário também não trouxe alívio: a projeção para 2027 subiu de 4,10% para 4,15%, e a de 2028 avançou de 3,68% para 3,70%, mostrando que os analistas ainda esperam um processo lento de acomodação dos preços, mesmo no médio prazo. Apenas a estimativa para 2029 permaneceu estável, em 3,50%, pela 42ª semana consecutiva, segundo o levantamento.

O boletim também trouxe nova alta na expectativa para a taxa Selic, que passou de 13,75% para 14% ao final de 2026, na terceira semana seguida de revisão para cima. Atualmente, a taxa básica de juros está em 14,25% ao ano, após o Comitê de Política Monetária reduzir os juros em 0,25 ponto percentual na reunião realizada em 17 de junho, dentro de um ciclo de cortes que havia começado em março. Já as projeções para o Produto Interno Bruto seguiram em direção contrária, com o mercado elevando a estimativa de crescimento da economia brasileira em 2026 para 1,98%, quinta alta consecutiva do indicador. A cotação do dólar, por sua vez, permaneceu estável em R$ 5,20 para o fim do ano, sem alterações em relação à semana anterior, segundo dados divulgados pelo Banco Central.

Por que a inflação resiste mesmo com a guerra perto do fim

Um dos fatores que ajuda a explicar essa resistência da inflação está na própria dinâmica de preços observada no mês de junho. A prévia da inflação, medida pelo IPCA-15 e divulgada pelo IBGE, mostrou alta de 0,41% no mês, impulsionada principalmente pelos grupos de Alimentação e Bebidas, com elevação de 0,74%, e Habitação, com avanço de 0,72%. Juntos, esses dois grupos responderam por cerca de 66% do resultado total do índice no período, segundo dados do próprio instituto. Itens como batata-inglesa e tomate registraram aumentos expressivos de preço, enquanto café moído e frutas tiveram queda, evidenciando como a inflação de alimentos no Brasil segue marcada por forte oscilação entre diferentes categorias de produtos ao longo dos meses, dificultando previsões mais precisas mesmo no curto prazo.

A conta de luz também tem feito sua parte na pressão inflacionária. A energia elétrica residencial subiu 2,04% em junho, com a manutenção da bandeira tarifária amarela pelo segundo mês consecutivo, o que representa um custo adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos pelas famílias brasileiras. Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, mesmo com sinais positivos na margem mensal, a tendência de fundo ainda mostra que o processo de desinflação no país é lento e desafiador, o que reforça a necessidade de cautela por parte do Banco Central nas próximas decisões sobre a Selic. Some-se a isso o fato de que, mesmo com a perspectiva de acordo no Oriente Médio, os efeitos da alta anterior nos preços de combustíveis e fatores climáticos, como o El Niño, ainda seguem no radar dos analistas que compõem o boletim.

O que esperar para o segundo semestre e para o bolso do brasileiro

Com a inflação projetada bem acima da meta e a Selic ainda em patamar elevado, a recomendação mais comum entre economistas é de cautela redobrada no planejamento financeiro das famílias para o segundo semestre, especialmente em gastos com alimentação e energia, que vêm puxando o índice nos últimos meses. O Comitê de Política Monetária já deixou claro, na ata divulgada após a reunião de junho, que o tamanho do próximo ajuste nos juros dependerá diretamente da evolução desses dados, incluindo a confirmação ou não dos termos do acordo para encerrar o conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o preço internacional do petróleo, item que impacta diretamente os combustíveis vendidos no Brasil.

Para quem possui dívidas ou pretende contrair crédito nos próximos meses, o cenário de Selic ainda em dois dígitos reforça a importância de buscar linhas mais baratas, como consignado ou financiamentos com taxas reguladas, evitando opções historicamente mais caras, como o cartão rotativo e o cheque especial. Já para investidores, juros elevados continuam favorecendo aplicações de renda fixa atreladas à Selic ou ao CDI, ainda que a escolha de onde alocar recursos deva sempre levar em conta o perfil de risco de cada pessoa. O próximo capítulo dessa novela inflacionária só deve ficar mais claro à medida que novos boletins Focus e novas atas do Banco Central forem divulgados ao longo das próximas semanas.

A 15ª alta seguida na projeção de inflação para 2026 mostra que, apesar do alívio geopolítico no Oriente Médio, o combate aos preços no Brasil ainda está longe de terminar. Entre o custo da energia elétrica, a oscilação nos preços dos alimentos e a manutenção da Selic em patamar elevado, o cenário que se desenha para o segundo semestre exige atenção redobrada de famílias, empresas e investidores. Para o brasileiro comum, a mensagem que fica do novo Boletim Focus é direta: o alívio no custo de vida pode demorar mais do que o esperado, o que reforça a importância de acompanhar de perto os próximos indicadores divulgados pelo Banco Central e pelo IBGE nas próximas semanas.

Fontes: Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-06/mercado-eleva-projecao-de-inflacao-e-ve-selic-em-14-ao-ano-em-2026 | InfoMoney: https://www.infomoney.com.br/economia/boletim-focus-eleva-projecoes-de-inflacao-e-selic-para-14-em-2026/ | CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/ipca-15-junho-2026/

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *