Dentre as condições que chegam tarde ao diagnóstico na terceira idade, Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, destaca a doença celíaca como uma das mais subestimadas e com maior potencial de causar dano sistêmico silencioso antes de ser identificada. Durante décadas, a doença celíaca foi considerada uma condição da infância e da idade adulta jovem, mas estudos mais recentes demonstram que ela pode se manifestar pela primeira vez após os 60 anos, apresentando-se de forma atípica e sendo frequentemente confundida com outras condições prevalentes na terceira idade.
O que é a doença celíaca, por que ela pode aparecer pela primeira vez na velhice e o que muda na vida do idoso após o diagnóstico são as perguntas que este artigo se propõe a responder de forma clara e acessível. Neste guia, abordaremos tudo o que o idoso e sua família precisam saber sobre essa condição.
O que é a doença celíaca e como ela danifica o intestino?
A doença celíaca é uma condição autoimune em que a ingestão de glúten, proteína presente no trigo, na cevada e no centeio, desencadeia uma resposta imunológica que danifica progressivamente a mucosa do intestino delgado. Esse dano, que afeta especificamente as vilosidades intestinais, estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes, compromete a capacidade do intestino de absorver vitaminas, minerais, proteínas e gorduras, produzindo deficiências nutricionais múltiplas que se manifestam em órgãos e sistemas aparentemente distantes do intestino.
Como detalha Yuri Silva Portela, a doença celíaca não é alergia ao glúten, que é uma condição diferente e menos grave, nem intolerância ao glúten não celíaca, que também tem mecanismo distinto. É uma doença autoimune com predisposição genética que, uma vez instalada, produz dano intestinal cumulativo enquanto o glúten continuar sendo consumido, independentemente da presença ou ausência de sintomas digestivos perceptíveis.
Por que a doença celíaca pode aparecer pela primeira vez depois dos 60 anos?
A doença celíaca tem predisposição genética, mas a presença dos genes de risco não determina se e quando a doença se manifestará. Fatores ambientais e imunológicos funcionam como gatilhos que podem ativar a resposta autoimune em qualquer fase da vida. No idoso, esses gatilhos incluem infecções gastrointestinais graves, cirurgias abdominais, uso prolongado de antibióticos que alteram a microbiota intestinal, estresse físico ou emocional intenso e outras doenças autoimunes que modificam o perfil de resposta imunológica do organismo.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, o diagnóstico tardio da doença celíaca no idoso é a regra, não a exceção. O idoso que desenvolve anemia ferropriva resistente ao tratamento, osteoporose desproporcional à idade, neuropatia periférica sem causa identificada, dermatite herpetiforme ou diarreia crônica sem explicação deveria ter a doença celíaca incluída no diagnóstico diferencial, independentemente de nunca ter apresentado sintomas digestivos evidentes ao longo da vida.
Como a doença celíaca se apresenta no idoso de forma diferente?
A apresentação clássica da doença celíaca, com diarreia crônica, distensão abdominal e perda de peso, é menos comum no idoso do que nas crianças e adultos jovens. Na terceira idade, a doença celíaca frequentemente se apresenta de forma silenciosa ou com manifestações extraintestinais: anemia refratária ao tratamento convencional, osteoporose acelerada, elevação inexplicável de enzimas hepáticas, neuropatia periférica com formigamento e fraqueza nos membros, aftas orais recorrentes e fadiga crônica desproporcional ao estado geral de saúde.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, essas manifestações atípicas explicam por que a doença celíaca no idoso é frequentemente investigada por múltiplos especialistas que tratam cada sintoma isoladamente, sem identificar a causa comum subjacente. O reumatologista trata a osteoporose, o hematologista trata a anemia, o neurologista trata a neuropatia, e nenhum deles pensa em solicitar o exame de anticorpos anti-transglutaminase, que poderia confirmar o diagnóstico celíaco e direcionar uma intervenção dietética capaz de melhorar todos esses problemas.
O que muda na vida do idoso após o diagnóstico e como adaptar a dieta?
Conforme destaca Yuri Silva Portela, o tratamento da doença celíaca é a dieta isenta de glúten, mantida de forma rigorosa e permanente. Essa mudança, que parece simples na teoria, representa uma transformação significativa nos hábitos alimentares de um idoso que provavelmente consumiu glúten durante toda a sua vida. Pão, macarrão, farinha de trigo, cevada e centeio precisam ser eliminados e substituídos por alternativas sem glúten que garantam a adequação nutricional da dieta.
O acompanhamento por nutricionista especializado em doença celíaca é fundamental para que essa transição seja feita de forma segura e sustentável, garantindo que o idoso não desenvolva novas deficiências nutricionais ao eliminar grupos alimentares que faziam parte de sua dieta habitual. Com a dieta correta, a mucosa intestinal se recupera gradualmente, as deficiências nutricionais se corrigem e os sintomas extraintestinais melhoram de forma que frequentemente surpreende tanto o paciente quanto o médico que acompanhou anos de tratamento sintomático sem resultado.
